PARÁBOLA DO TRIGO E DO JOIO

 POR RODRIGO H. C. OLIVEIRA


A Parábola do Trigo e do Joio (Mt 13.24-52) nos apresenta uma dura e óbvia realidade: No mundo existe tanto o joio quanto o trigo. O falso coexiste junto do verdadeiro e o bem está rodeado pelo mal. Fato é, em verdade, que no mundo os filhos de Deus coexistem junto dos filhos do diabo.

Trata-se de uma verdade clara. Em todo e qualquer lugar podemos observar a existência da luz e das trevas, dos justos e dos injustos. Isso, porém, não é motivo para desânimo, mas é sinal de alerta e conforto para o povo de Deus. Sabemos que, a despeito da presença do mal, o Reino dos céus também está presente no mundo, entre nós.

Nesta ocasião, Jesus estava assentado num barco; e toda a multidão estava em pé, ouvindo-o da praia (Mt 13.1-3). Dessa forma, propôs-lhes uma parábola, dizendo: "O Reino dos céus é semelhante..." a um homem que semeia boa semente em seu campo. Mas enquanto todos dormem, o inimigo semeia o joio no meio do trigo.

O estrago só foi descoberto quando o trigo começou a despontar, momento em que já se começa a fazer perceptível a diferença entre ele e o joio. Assim, os servos comunicaram ao pai de família acerca do ocorrido, que reconheceu isso como sendo obra de um inimigo (...)

Analisemos, portanto, versículo a versículo:


O JOIO E O TRIGO

Havia, pois, um homem semeando "boa semente no seu campo; mas, dormindo os homens, veio o seu inimigo, e semeou o joio no meio do trigo" Mateus 13.24,25

Somos informados, mais tarde, que o homem que semeia a boa semente é o próprio Senhor Jesus. O trigo semeado representa os filhos do Reino; já o campo, representa o mundo; e o inimigo, é o diabo. Além disso, a semente ruim (joio) aponta para aqueles que são filhos do Maligno (Mt 13.37-39).

Nas palavras de Jesus, "o campo é o mundo" (Mt 13.38) que, em verdade, pertence a Ele. Por isso o verso 24 menciona que a semente foi lançada em "seu campo". Trata-se de outra verdade muito clara, a Bíblia diz que do Senhor é a terra e a sua plenitude, bem como todos que nela habitam, assim como tudo o que existe no mundo pertence a Ele (Sl 24.1).

Esse aspecto se faz extremamente importante e é digno de nossa atenção. O sentido da parábola pode mudar drasticamente a depender de como interpretamos o significado do "campo". Infelizmente, em decorrência de uma leitura corrida e não detalhada, muitos têm confundido o campo com a Igreja de Cristo. Este aspecto será abordado novamente à frente, no entanto, desde já importa mencionar que não é este o caso. Jesus afirmou que o campo é, na verdade, o mundo (gr. κόσμος - kosmos), e não a Igreja (Mt 13.38).

Quanto ao inimigo, diz a Palavra que é o diabo. A palavra aqui utilizada para diabo (gr. διάβολος - diabolos) refere-se ao "caluniador e acusador"; o próprio pai da mentira (Jo 8.44). Não se trata, também, de uma novidade. O diabo sempre se opôs às obras de Deus e desde o princípio anda na prática do pecado (I Jo 3.8).

Seus filhos, o joio, realmente se parece com o trigo, mas não produz nada de bom. Todos fomos criados à imagem e semelhança de Deus, no entanto, só podem ser filhos do Reino aqueles que realmente receberam a Jesus como Senhor e Salvador. Receber a Jesus como Senhor implica andar no Espírito, em santidade e obediência a Ele.

A princípio, enquanto crescem, fica difícil fazer distinção entre trigo e joio. Porém, quando crescidos, a diferença se faz óbvia. Enquanto o trigo é povo de Deus, o joio é povo do diabo. O trigo possui em seu ser a essência, mas o joio apenas a aparência. O trigo se curva ao vento com facilidade, mas o joio, por sua dureza e rigidez, se recusa a curvar. O trigo é útil, mas o joio não serve senão para queimar. 

A parábola nos esclarece que "quando a erva cresceu e frutificou, apareceu também o joio" - Mateus 13.26

Trata-se de um detalhe importante, pois está escrito que a erva cresceu e frutificou. O próprio livro de Mateus nos diz que pelo fruto a árvore se dá a conhecer"portanto, pelos seus frutos os conhecereis. Ou dizeis que a árvore é boa e o seu fruto, bom, ou dizeis que a árvore é má e o seu fruto, mau; porque pelo fruto se conhece a árvore" - Mateus 7.20; 12.33

O joio (gr. ζιζάνιον -zizanion) é um tipo de planta que tem praganas e cresce nos campos de cereais. Fica tão alto quanto o trigo e a cevada, e no aspecto se assemelha ao trigo. Os judeus acreditavam que se tratava de trigo degenerado. Os rabinos o chamavam "bastardo". As sementes são venenosas para o homem e animais herbívoros, causando sonolência, náusea, convulsões e até morte (são inócuas para as avícolas). As plantas podem ser retiradas, mas o costume, como na parábola, é deixar para fazer a limpeza perto do tempo da colheita¹.

Por esse motivo, a distinção entre ambos começou a se mostrar perceptível somente após terem crescido e frutificado. Então "os servos do pai de família, indo ter com ele, disseram-lhe: Senhor, não semeaste tu no teu campo boa semente? Por que tem, então, joio? E ele lhes disse: Um inimigo é quem fez isso. E os servos lhe disseram: Queres, pois, que vamos arrancá-lo?" - Mateus 13.27,28


NÃO NOS COMPETE SEPARAR O JOIO DO TRIGO

"Porém ele [O Senhor] lhes disse: Não; para que, ao colher o joio, não arranqueis também o trigo com ele" - Mateus 13.29

Aqui é importante relembrarmos que o campo não é a Igreja, mas o mundo. O trigo e o joio não se referem, portanto, ao crente verdadeiro e ao crente falso, mas aos filhos do Reino e aos filhos do diabo. Não se trata, pois, do caráter misto que também é encontrado na Igreja. É certo que na Igreja existem aqueles que servem a Deus e aqueles que não o servem.

No entanto, apesar de ser fato, a Parábola do Trigo e do Joio não se propõe a ensinar que na Igreja exista tanto o trigo quanto o joio. O ensino é referente ao mundo, o local onde vivemos. Por esta questão é que não podemos excluir e arrancar o joio antes do tempo. Na verdade não sabemos quem, no mundo, virá a Cristo ou não. Assim sendo, não devemos agir como os fariseus, em acepção de pessoas.

Neste mesmo sentido, o Apóstolo Paulo nos esclarece que não é competência nossa julgar os que estão de fora da Igreja, isto é, não compete a nós levá-los a julgamento e atribuir-lhes culpa ou inocência, "mas Deus julga os que estão de fora" - I Coríntios 5.13

Não devemos, portanto, impedir quem quer que seja da oportunidade de conhecerem a Cristo ou ao Evangelho. Os fariseus, por exemplo, viviam excluindo os pecadores do meio deles. Em certa ocasião, quando Jesus estava sentado à mesa, "chegaram muitos publicanos e pecadores e sentaram-se juntamente com Jesus e seus discípulos" - Mateus 9.10

Os fariseus, ao verem isso, disseram aos discípulos de Jesus: "Por que come o vosso Mestre com os publicanos e pecadores? Jesus, porém, ouvindo, disse-lhes: Não necessitam de médico os sãos, mas sim, os doentes. Ide, porém, e aprendei o que significa: Misericórdia quero e não sacrifício. Porque eu não vim para chamar os justos, mas os pecadores, ao arrependimento" - Mateus 9.11-13

Tal verdade também foi exposta por Jesus por meio da Parábola do Fariseu e do Publicano: 

"E disse também esta parábola a uns que confiavam em si mesmos, crendo que eram justos, e desprezavam os outros: Dois homens subiram ao templo, a orar; um, fariseu, e o outro, publicano. O fariseu, estando em pé, orava consigo desta maneira: Ó Deus, graças te dou, porque não sou como os demais homens, roubadores, injustos e adúlteros; nem ainda como este publicano. Jejuo duas vezes na semana e dou os dízimos de tudo quanto possuo" - Lucas 18.9-12

Percebemos, assim, que este fariseu se julgava melhor do que os outros e não percebia o próprio pecado. Arrancou do seu meio todos os que julgava ser impuros, tratando-os com desprezo e indiferença. O que ele fez não foi nada diferente do que arrancar da sua presença, erroneamente, quem ele considerava joio. "O publicano, porém, estando em pé, de longe, nem ainda queria levantar os olhos ao céu, mas batia no peito, dizendo: Ó Deus, tem misericórdia de mim, pecador!" - Lucas 18.13

Nas palavras de Jesus, o publicano desceu justificado para sua casa, mas o fariseu, não. "Porque qualquer que a si mesmo se exalta será humilhado, e qualquer que a si mesmo se humilha será exaltado" - Lucas 18.14

Assim sendo, é sabido que o mundo jaz no maligno (I Jo 5.19). Porém, nosso dever não é condená-lo antes da hora, mas sairmos e anunciarmos à todos aqueles que estão enfermos pelo pecado que o Médico dos médicos tem solução para as vossas almas.

Hernandes Dias Lopes observa que não temos competência para arrancar o joio do meio do trigo porque nossos critérios de avaliação são passíveis de erro. Correríamos o perigo de arrancar o trigo como se joio fosse. Então, essa separação só acontecerá na segunda vinda de Cristo, quando os anjos farão precisa distinção entre um e outro. Naquele dia, então, o trigo irá para o celeiro de Deus, e o joio irá para o fogo.²


A IGREJA TEM COMPETÊNCIA PARA JULGAR OS QUE SE DIZEM IRMÃOS

Muitos, por confundirem o campo da parábola com a Igreja, caem no erro de aceitar o mal dentro dela. Tal interpretação equivocada os conduz a permitir todo tipo de imoralidade e perversidade por parte de seus integrantes. No entanto, a Bíblia nos ensina o contrário. A Igreja deve ser santa, pura e imaculada.

Warren Wiersbe traz um alerta a este respeito quando diz que devemos ter cuidado, também, com as falsificações de Satanás, pois ele possui crentes falsos que se apresentam como nossos irmãos (II Co 11.26), no entanto, creem num falso evangelho (Gl 1.6-9). Ele estimula uma falsa justificação (Rm 10.1-3) e tem, inclusive, uma falsa igreja (Ap 2.9). No final dos tempos, chegará ao cúmulo de produzir um falso Cristo (II Ts 2.1-12).³

O próprio Evangelho segundo Mateus afirma que "se teu irmão pecar contra ti, vai e repreende-o entre ti e ele só; se te ouvir, ganhaste a teu irmão. Mas, se não te ouvir, leva ainda contigo um ou dois, para que, pela boca de duas ou três testemunhas, toda palavra seja confirmada. E, se não as escutar, dize-o à igreja; e, se também não escutar a igreja, considera-o como um gentio e publicano. Em verdade vos digo que tudo o que ligardes na terra será ligado no céu, e tudo o que desligardes na terra será desligado no céu" - Mateus 18.15-18

Considerá-lo como gentio e publicano significa excluí-lo da comunhão da igreja, isto é, arrancá-lo do meio do povo de Deus. Faz-se necessário dizer que, a princípio, é dada a oportunidade para o arrependimento. Não havendo arrependimento, porém, exclui-se tal pessoa da comunidade cristã. Não devemos, no entanto, agir de forma vingativa, mas com mansidão, espiritualidade e vigilância (Gl 6.1).

Paulo, em uma de suas epístolas diz: "Ao homem herege, depois de uma e outra admoestação, evita-o,
sabendo que esse tal está pervertido e peca, estando já em si mesmo condenado" Tito 3.10,11

Novamente observamos que em princípio há a oportunidade para o arrependimento, mas não o havendo, devemos excluir tal herege da nossa comunhão. Também em outra de suas epístolas, o Apóstolo dos gentios ensina que: 

"Geralmente, se ouve que há entre vós [comunidade cristã] imoralidade e imoralidade tal, como nem mesmo entre os gentios, isto é, haver quem se atreva a possuir a mulher de seu próprio pai. E, contudo, andais vós ensoberbecidos e não chegastes a lamentar, para que fosse tirado do vosso meio quem tamanho ultraje praticou? Eu, na verdade, ainda que ausente em pessoa, mas presente em espírito, já sentenciei, como se estivesse presente, que o autor de tal infâmia seja, em nome do Senhor Jesus, reunidos vós e o meu espírito, com o poder de Jesus, nosso Senhor, entregue a Satanás para a destruição da carne (...) Não é boa a vossa jactância. Não sabeis que um pouco de fermento leveda a massa toda? Lançai fora o velho fermento, para que sejais nova massa, como sois, de fato, sem fermento. Pois também Cristo, nosso Cordeiro pascal, foi imolado. Por isso, celebremos a festa não com o velho fermento, nem com o fermento da maldade e da malícia, e sim com os asmos da sinceridade e da verdade. Já em carta vos escrevi que não vos associásseis com os impuros; refiro-me, com isto, não propriamente aos impuros deste mundo, ou aos avarentos, ou roubadores, ou idólatras; pois, neste caso, teríeis de sair do mundo. Mas, agora, vos escrevo que não vos associeis com alguém que, dizendo-se irmão, for impuro, ou avarento, ou idólatra, ou maldizente, ou beberrão, ou roubador; com esse tal, nem ainda comais (...) Não julgais vós os de dentro? Expulsai, pois, de entre vós a este iníquo" - I Coríntios 5.1-13

Deste modo fica claro, mais uma vez, que a Parábola do Trigo e do Joio não se trata de uma comparação entre os servos fiéis e infiéis, mas entre os bons e os maus, entre a luz e as trevas, entre o ímpio e o fiel, entre os filhos do Reino e os filhos do Diabo. Por esta causa não compete a nós julgarmos os de fora, mas evangelizá-los. Porém, aos de dentro, àqueles que se dizem irmãos, devemos, sim, julgá-los segundo a reta justiça, conforme nos orienta a Palavra de Deus (Jo 7.24).


POR OCASIÃO DA CEIFA HAVERÁ DISTINÇÃO

Assim, disse o pai de família para seus servos: "Deixai crescer ambos juntos até à ceifa; e, por ocasião da ceifa, direi aos ceifeiros: colhei primeiro o joio e atai-o em molhos para o queimar; mas o trigo, ajuntai-o no meu celeiro" - Mateus 13.30

A ceifa, conforme explicado por Jesus, é o fim do mundo; e os ceifeiros são os anjos (Mt 13.39). Da mesma forma, "como o joio é colhido e queimado no fogo, assim será na consumação deste mundo. Mandará o Filho do Homem os seus anjos, e eles colherão do seu Reino tudo o que causa escândalo e os que cometem iniquidade. E lançá-los-ão na fornalha de fogo; ali, haverá pranto e ranger de dentes" - Mateus 13.40-42

Tudo o que causa escândalo (gr. σκάνδαλα - skandala) significa "tudo o que apanha em armadilha ou seduz os homens à destruição". Iniquidade (gr. ἀνομίαν - anomia) refere-se àqueles que vivem sem lei, ou melhor dizendo, em total desprezo em relação à lei de Deus. Tais pessoas vivem na carne e não podem agradar a Deus (Rm 8.8).

O profeta Malaquias escreveu que aquele dia "vem ardendo como forno; todos os soberbos e todos os que cometem impiedade serão como palha; e o dia que está para vir os abrasará, diz o Senhor dos Exércitos, de sorte que lhes não deixará nem raiz nem ramo" - Malaquias 4.1

Todos, pois, que vivem na carne e na prática do pecado, em desprezo e inobservância à lei de Deus, serão lançados na fornalha de fogo. Ali haverá pranto e ranger de dentes.

Os justos, porém, "resplandecerão como o sol, no Reino de seu Pai" (Mt 13.43). Tal passagem nos faz lembrar de Daniel, quando diz que "os sábios, pois, resplandecerão como o resplendor do firmamento; e os que a muitos ensinam a justiça refulgirão como as estrelas, sempre e eternamente" - Daniel 12.3

Portanto, todos que vivem em santidade e andam no Espírito, em obediência à Palavra de Deus, serão recolhidos em Seu celeiro, onde sempre e eternamente viverão em paz e alegria para com o Senhor.


CONCLUSÃO

Apesar da maldade e dos filhos do diabo, o Reino dos céus já se faz presente no mundo. Nós, como reino sacerdotal, não devemos fazer acepção de pessoas, julgando os de fora e os privando da oportunidade de também fazerem parte de nós.

Somente a Deus compete julgar os de fora, ou seja, na ocasião da ceifa, separar e joio do trigo e destinar uns para o Seu celeiro e outros para a fornalha de fogo, onde há pranto e ranger de dentes.

Isso não significa, porém, que Igreja não tem competência para julgar os de dentro, que se dizem irmãos. No entanto, "vós, que sois espirituais, corrigi-o com espírito de brandura; e guarda-te para que não sejas também tentado" - Gálatas 6.1

"Quem tem ouvidos para ouvir, que ouça" - Mateus 13.43


Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo!


NOTAS

¹ Vine, W. E. Dicionário Vine, págs. 728, 729.
² Wiersbe, Warren W. Comentário Bíblico Expositivo, p. 57.
³ Lopes, Hernandes Dias. Mateus - Jesus o Rei dos reis, p. 433.


REFERÊNCIAS

Vine, W. E. Dicionário Vine. CPAD.
Lopes, Hernandes Dias. Mateus - Jesus o Rei dos reis. Hagnos.
Earle, Ralph. Comentário Bíblico Beacon. CPAD.
Strong. Concordância de Strong. Disponível em: https://biblehub.net/searchstrongs.php?q=


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