O PECADO ORIGINAL

POR RODRIGO H. C. OLIVEIRA
O PECADO ORIGINAL

"Portanto, como por um homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim também a morte passou a todos os homens por isso que todos pecaram" - Romanos 5.12


INTRODUÇÃO

Em Gênesis nós encontramos a narração fática das origens. Lá está a origem de tudo: do universo, do homem, da família, do pecado, do assassinato, etc.

A ala da teologia conhecida como "liberalismo" coloca em dúvida a Palavra de Deus ao negá-la a veracidade e infalibilidade. A razão humana é posta acima da inspiração divina de tal modo que já não aceitam os primeiros onze capítulos do Gênesis como sendo literais, ou seja, só aceitam o que se pode explicar racionalmente. Deste modo, sugerem a história de Adão e Eva se trata apenas de uma grande parábola moral. No entanto, este é um gravíssimo erro! 

O Gênesis é histórico e real. Não se trata de uma parábola, mas de uma narração fática de eventos que realmente aconteceram. Neste estudo iremos analisar um desses eventos: A Queda, isto é, o momento em que o homem escolheu pecar contra Deus desobedecendo e rebelando-se contra a Sua vontade. Assim, daremos início ao tema que resultou – dentre outras consequências – na morte e inimizade do homem para com Deus.


A ORDEM DE DEUS

Na narrativa da criação (Gn 1 e 2) podemos observar o surgimento do jardim do Éden. A Septuaginta¹ traduziu a palavra “jardim” em hebraico para a palavra grega “paradeison”, que significa “paraíso”. Já a palavra “Éden” não é uma tradução, mas a transliteração do texto original que significa “prazeres ou delícias”. O jardim do Éden era, portanto, o paraíso das delícias e prazeres disponível ao homem. Não à toa, viu Deus que tudo quanto criara era muito bom.

Nesse jardim Deus fez nascer da terra “toda a árvore agradável à vista, e boa para comida” (Gn 2.9) e, dessa forma, nada faltaria à raça humana. É maravilhoso saber que Deus sempre tem o melhor para nós. Porém, Deus havia dado uma ordem ao homem. No jardim também havia um fruto proibido do qual não se podia comer: o fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal.

“E ordenou o Senhor Deus ao homem, dizendo: De toda a árvore do jardim comerás livremente, mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás” - Gênesis 2.16-17.

Ao criar o homem, Deus criou um ser livre e – a fim de garantir o livre arbítrio – colocou no jardim a árvore da ciência do bem e do mal. Ora, só há livre arbítrio onde há possibilidade de escolha. No entanto, o Senhor já havia alertado ao homem desde o início com relação às consequências de uma má escolha: “no dia em que dela comeres, certamente morrerás” (17). O “não comerás” era uma benção para Adão e sua mulher, o objetivo não era o de simplesmente proibir, mas de preservar a vida. Tenhamos isso em mente: todo “não” que Deus nos dá é benção para nós! 

Porque “certamente morrerás” (17) indicava não apenas uma morte espiritual, mas também física: [...] “ora, para que não estenda a sua mão, e tome também da árvore da vida, e coma e viva eternamente” no pecado – “O Senhor Deus, pois, o lançou fora do jardim do Éden, para lavrar a terra de que fora tomado” (Gn 3.22-23). Assim, fica claro que a morte é uma consequência direta do pecado e da rebelião contra Deus. 



A REALIDADE DA TENTAÇÃO
GÊNESIS 3.1-6

A serpente (ou Satanás) está sempre ao nosso redor em busca de um momento que lhe seja oportuno para dar o seu bote (I Pe 5.8). Ao iniciar um diálogo com Eva, chegou passando-se por inocente ao perguntar se foi “assim que Deus disse?” (1). Tal pergunta mostra o quão astuto o diabo é. Ele age dessa forma, está sempre à procura de brechas e oportunidades (Lc 4.13) com o intuito de nos atrair para o pecado objetivando nos afastar de Deus e de Sua vontade. Precisamos extrair uma extraordinária lição neste primeiro versículo: não cabe diálogos com o inimigo.

Às vezes a serpente tenta nos aproximar do mal através de uma simples conversa. Fazendo uma pergunta sugestiva, ela nos atrai e dá início à sua estratégia maligna. O “não comereis de toda a árvore do jardim?” (1) foi uma pergunta estratégica para atrair a atenção da mulher, que logo se dispôs a corrigir a serpente dizendo: “do fruto das árvores do jardim comeremos, mas do fruto da árvore que está no meio do jardim, disse Deus: Não comereis dele, nem nele tocareis para que não morrais” (2, 3).

Lembremo-nos do provérbio que diz: “Não respondas ao tolo segundo a sua estultícia; para que também não te faças semelhante a ele” (Pv 26.4). Nosso inimigo é astuto e inteligente. Ele observa as nossas fraquezas e usa de artimanhas para nos apanhar. Muitas vezes a sugestão para o pecado não vem de forma direta, mas por meio de voltas e sugestões que resultam em desastre. Papear com o adversário é um erro que não devemos cometer, antes, devemos seguir o conselho que nos diz: “resisti ao diabo, e ele fugirá de vós” (Tg 4.7).

Eva caiu na cilada e foi enganada. Não teria sido assim caso houvesse evitado o diálogo com o diabo. Ao responder a serpente, pôs-se a ouvi-la em réplica dizendo a mentira do “certamente não morrereis” (4). Sendo o seu próprio desejo, incentivou-o também na mulher: ser “como Deus” (5). O apóstolo Paulo nos alerta temer que, “assim como a serpente enganou Eva com a sua astúcia, assim também sejam de alguma sorte corrompidos os vossos sentidos, e se apartem da simplicidade que há em Cristo” (II Co 11.3).

É necessário, portanto, que estejamos atentos ao conselho que diz: “No demais, irmãos meus, fortalecei-vos no Senhor e na força do seu poder. Revesti-vos de toda a armadura de Deus, para que possais estar firmes contra as astutas ciladas do diabo” (Ef 6.10-11).

A serpente, contrariando a Palavra do Senhor, colocou em dúvida a verdade que Eva havia recebido. Então, movida pela curiosidade, a mulher voltou-se em atenção para o que lhe estava proibido. Foi um grande erro! “E viu a mulher que aquela árvore era boa para se comer” (6), nos mostra, aqui, a segunda etapa caminho à perdição. Não compensa olharmos com atenção para o que nos é proibido, muito menos após termos sido contestados quanto a veracidade da Palavra de Deus. 

Primeiro veio a negação da verdade, e agora, já com a sugestão da dúvida em seu coração, a mulher olha atentamente para o fruto proibido e percebe que – pela aparência física – era bom para se comer. Comer está relacionado à concupiscência da carne. Observemos, pois, que o Éden era um jardim de delícias. Havia uma inúmera variedade de frutos e sabores à disposição do homem, mas o diabo é assim, nos incentiva a abandonar tudo o que Deus nos dá em troca de uma única coisa. A concupiscência busca apenas a satisfação própria, não levando em conta, porém, as consequências desta. 

Logo após, Eva percebeu que o fruto era “agradável aos olhos” (6). Aqui nós encontramos a concupiscência dos olhos. Não envolve tão somente os olhos físicos, mas relaciona-se com a mente e imaginação. A sugestão é que aquilo que nos é agradável aos olhos vale a pena. Mas será verdade? Jesus disse que não: “se o teu olho te escandalizar, arranca-o, e atira-o para longe de ti; melhor te é entrar na vida com um só olho, do que, tendo dois olhos, seres lançado no fogo do inferno” (Mt 18.9). Antecedendo à Queda manifestou-se também a soberba da vida, pois para Eva, a árvore era “desejável para dar entendimento” (6). 



A QUEDA
GÊNESIS 3.6

Eva chegou-se a árvore proibida, “tomou do seu fruto, e comeu, e deu também a seu marido, e ele comeu com ela” (6). Eva descumpriu a ordem de Deus e levou seu marido, Adão, a cometer o mesmo erro. Desobedeceram o mandamento de Deus se fazendo rebeldes para com Ele. No entanto, o responsável principal foi Adão, assim nos escreveu também o apóstolo Paulo ao dizer que “Adão não foi enganado, mas a mulher, sendo enganada, caiu em transgressão” (I Tm 2.14). Por este fato, “por um homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim também a morte passou a todos os homens por isso que todos pecaram” (Rm 5.12).

Logo após perceberem que haviam caído abalando a comunhão com o Pai, procuraram por meio de recurso próprio esconderem sua nudez (Gn 3.7). Ao ouvirem a voz do Senhor, que passeava no jardim pela viração do dia; “esconderam-se Adão e sua mulher da presença do Senhor Deus, entre as árvores do jardim” (8). Mas Nosso Senhor tem olhos como tochas (Dn 10.6), olhos como chama de fogo (Ap 1.14), olhos que veem tudo e a todos. Nada está oculto a Deus, Ele é o Todo Poderoso criador dos céus e da terra. 

Sabemos que todo pecado tem por salário a morte (Rm 6.23), mas além da morte, o pecado traz outras consequências para o homem. Uma vez que somos corpo, alma e espírito (I Ts 5.23), o pecado gera consequências em todos estes âmbitos. Em Gênesis podemos observar o juízo de Deus para com a serpente, a mulher, o homem e a própria natureza.  



O JUÍZO DE DEUS
GÊNESIS 3.14-19, 22-24

Para a Serpente:

“Porquanto fizeste isto, maldita serás mais que toda a fera, e mais que todos os animais do campo; sobre o teu ventre andarás, e pó comerás todos os dias da tua vida” (14). Tal castigo continuará mesmo após a restauração envolvendo o milênio, pois o “lobo e o cordeiro se apascentarão juntos, e o leão comerá palha como o boi; e pó será a comida da serpente. Não farão mal nem dano algum em todo o meu santo monte, diz o Senhor” (Is 65.25).

“E porei inimizade entre ti e a mulher, e entre a tua semente e a sua semente; esta te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar” (15) nos indica não apenas uma trágica oposição entre ambos, mas também a esperança de redenção. A semente da serpente são todos aqueles que entregam seus corações ao diabo (Jo 8.44; Mt 13.38-39), já a semente da mulher apontava para Jesus, o Cristo. O Messias era – e ainda é – o único capaz de esmagar a cabeça da serpente de forma definitiva, mas, se você está em Cristo e é membro do Seu corpo, “o Deus de paz esmagará em breve Satanás debaixo dos vossos pés” (Rm 16.20).

Para Eva: 

“E à mulher disse: Multiplicarei grandemente a tua dor, e a tua conceição; com dor darás à luz filhos; e o teu desejo será para o teu marido, e ele te dominará” (16). O pecado gerou por consequência uma dor extremamente forte com relação à conceição. Além disso, a mulher estaria sujeita ao marido da mesma forma que “Cristo é a cabeça da Igreja” (Ef 5.23). Apesar disso, “não são poucas as filhas de Eva elogiadas por sua incomum virtude e cooperação no Reino de Deus (Pv 31.10-30; II Jo 1.13). Sara, Débora, Ester, Maria e Priscila são apenas alguns desses belos exemplos”

Para Adão: 

“[...] maldita é a terra por causa de ti; com dor comerás dela todos os dias da tua vida. Espinhos, e cardos também, te produzirá; e comerás a erva do campo. No suor do teu rosto comerás o teu pão, até que te tornes à terra; porque dela foste tomado; porquanto és pó e em pó te tornarás” (17-19). Tais consequências levaram toda criação a gemer (Rm 8.22) e, com dor, o homem busca o seu sustento. O que antes tínhamos em abundância, hoje precisamos trabalhar muito para conseguir. É com suor e trabalho árduo que o homem sobreviveria; espinhos e cardos também surgiriam na face da terra. “Adão viu, a duras penas, o preço de se desobedecer a Deus e à sua Palavra”

Para a Humanidade:

Além das consequências mencionadas em relação a Adão e Eva, podemos destacar também o que se segue: “Então disse o Senhor Deus: [...] ora, para que não estenda a sua mão, e tome também da árvore da vida, e coma e viva eternamente, O Senhor Deus, pois, o lançou fora do jardim do Éden... E havendo lançado fora o homem, pôs querubins ao oriente do jardim do Éden, e uma espada inflamada que andava ao redor, para guardar o caminho da árvore da vida” (22-24). O pecado nos trouxe o trágico juízo de perdermos o acesso a árvore da vida. A desobediência levou a raça humana à perda da vida física e espiritual. 



A ESPERANÇA DA JUSTIFICAÇÃO

Tiago nos advertiu para o fato de que “qualquer que quiser ser amigo do mundo constitui-se inimigo de Deus” (Tg 4.4). O pecado nos afastou dEle nos colocando em guerra constante (Rm 5.10, Cl 1.21). Estamos distantes de Deus, em inimizade para com Ele. Somos dignos do juízo que recai sobre o pecador, mas a Palavra nos diz que pelo amor com que nos amou, Deus enviou o seu único Filho para receber o castigo pelo meu e pelo seu pecado, nos livrando de tal juízo (Jo 3.16). Assim, “como por uma só ofensa veio o juízo sobre todos os homens para condenação, assim também por um só ato de justiça veio a graça sobre todos os homens para justificação de vida. Porque, como pela desobediência de um só homem, muitos foram feitos pecadores, assim pela obediência de um muitos serão feitos justos” (Rm 5.18-19). 

Em Cristo há esperança para as nossas almas, podemos ser justificados nEle. Justificação, “[do heb. tsadik; do gr. diakaios; do lat. justificationem]. É o ato de declarar justo. Trata-se de um processo judicial que se dá junto ao Tribunal de Deus, através do qual o pecador que aceita a Cristo é declarado justo (Rm 5.1). Ou seja: passa a ser visto por Deus como se jamais tivera pecado em toda a sua vida (Rm 5.1). A justificação é mais que um mero perdão. O criminoso perdoado, ou anistiado, continuará criminoso. Mas se Deus o justificar, torna-se ele justo (Rm 8.1). A justificação é obtida única e exclusivamente pela fé em Cristo Jesus”.

"Não há um justo, nem um sequer" (Rm 3.10). Todos nós pecamos, mas se nós nos rendermos a Cristo e aceitarmos por fé que o juízo que estava sobre nós recaiu sobre Ele, então seremos justificados e venceremos o mundo. Andemos em Seu caminho de paz e "ao que vencer", disse Jesus "dar-lhe-ei a comer da árvore da vida, que está no meio do paraíso de Deus” (Ap 2.7). O caminho fechado em Gênesis se mostra aberto em Apocalipse. Tudo o que nós precisamos fazer é reconhecermos o nosso pecados, arrependermo-nos deles e confessarmos a Deus com ousadia pelo sangue do Cordeiro. Bendito seja o Senhor dos céus e da terra!

"Portanto, agora nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus, que não andam segundo a carne, mas segundo o Espírito." (Rm 8:1)



NOTAS DE RODAPÉ

¹ - Septuaginta foi a primeira tradução da Bíblia, do Antigo Testamento hebraico para o grego. Uma carta (conhecida como a Carta de Aristeias) nos narra que este fato se deu por um pedido do rei Ptolomeu II e, para que houvesse um exemplar na biblioteca de Alexandria, ordenou que fosse escrita uma solicitação ao sumo sacerdote de Jerusalém, a fim de que enviasse 72 dos seus melhores estudiosos para fazerem a tradução. Após ficar pronta, a tradução fora muito elogiada e, por este motivo, os estudiosos retornaram para Jerusalém cheios de presentes valiosos.

² - O Começo de Todas as Coisas, Revista de Lições Bíblicas da CPAD, 4º Trimestre de 2015.
³ - O Começo de Todas as Coisas, Revista de Lições Bíblicas da CPAD, 4º Trimestre de 2015.
⁴ - Para conhecer mais leia Dicionário Teológico, CPAD, p. 198.



REFERÊNCIAS

Bíblia Sagrada -  Almeida e Corrigida, Almeida e Corrigida Fiel
Comentário Bíblico Beacon; CPAD, Vol 01 - Vários Autores
O Começo de Todas as Coisas, Revista de Lições Bíblicas da CPAD, 4º Trimestre de 201
A Raça Humana; CPAD, Claudionor de Andrade

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