PASTORES PODEM RECEBER SALÁRIO?

   POR RODRIGO H. C. OLIVEIRA


O tema deste estudo é um dos mais polêmicos e questionados por muitos cristãos. Há, sim, aqueles que acreditam que os pastores devem receber salário, entretanto, há também os que defendem exatamente o oposto. Aliás, há pessoas que chegam a afirmar que o pastor que recebe está cometendo pecado, pois Cristo ensinou o "de graça recebestes, de graça dai"; e, ainda, que o apóstolo Paulo disse não querer ser pesado à Igreja.

De fato Cristo ensinou aquilo e Paulo também disse isto, no entanto, também cremos que a Bíblia (a Palavra de Deus) é nossa única regra de fé e prática, devendo, porém, ser analisada como um todo. Nesse sentido, o conteúdo do presente estudo traz uma visão bíblica detalhada (mas não exaustiva) sobre o tema. Para tanto, teceremos uma linha de raciocínio que só será compreendida com a leitura completa e atenciosa de cada um dos tópicos aqui expostos.

Deixemos de lado todo conceito pré-estabelecido e ouçamos, com atenção, o que nos diz a santa Palavra de Deus. Que o Senhor nos abençoe!


I - JESUS E OS 12 RECEBEM SUSTENTO

"E aconteceu, depois disso, que andava de cidade em cidade e de aldeia em aldeia, pregando e anunciando o evangelho do Reino de Deus; e os doze iam com ele, e também algumas mulheres que haviam sido curadas de espíritos malignos e de enfermidades: Maria, chamada Madalena, da qual saíram sete demônios; e Joana, mulher de Cuza, procurador de Herodes, e Suzana, e muitas outras que o serviam com suas fazendas" - Lucas 8.1-3

Ora, o texto acima demonstra que Jesus e seus discípulos pregavam o evangelho do Reino de Deus de cidade em cidade e de aldeia em aldeia e, para tanto, eram sustentados por mulheres que os serviam com suas próprias fazendas.

Versões bíblicas como a Almeida Corrigida Fiel (ACF) e Nova Versão Internacional (NVI) traduzem o termo "fazendas" por "seus bens"; já a Nova Versão Transformadora (NVT) diz que essas mulheres "contribuíam com os seus próprios recursos para o sustento de Jesus e seus discípulos". Também segue esta mesma linha a Nova Tradução na Linguagem de Hoje (NTLH).

Quanto a isso, Hernandes Dias Lopes observa que essas mulheres transformadas e libertadas pelo evangelho "acompanhavam Jesus e seus discípulos para oferecer-lhes suporte financeiro e prestar-lhes assistência com os seus bens".¹ Evidencia-se, portanto, que Jesus e os 12 receberam sustento financeiro enquanto realizavam a obra evangelística.


II - DE GRAÇA RECEBESTES, DE GRAÇA DAI 

Certa vez Jesus comissionou seus 12 apóstolos a anunciarem o Reino dos Céus às ovelhas perdidas da casa de Israel e nesta mesma ocasião, o Senhor os orientou dizendo:

"Curem os enfermos, ressuscitem os mortos, purifiquem os leprosos, expulsem os demônios. Vocês receberam de graça; dêem também de graça" - Mateus 10.8

Que, pois, o Mestre está ensinando aqui? Porventura seria este o embasamento utilizado por aqueles que acusam de cometer pecado os pastores que recebem salário? Atenhamo-nos, pois, ao texto. Que diz? Que os 12 receberam o poder e autoridade de Jesus para realizarem sinais e prodígios, a saber, curar os enfermos, ressuscitar os mortos, purificar os leprosos e expulsar os demônios.

Tal poder e autoridade eles receberam de graça, ou seja, não tiveram de comprar ou dar algo em troca a fim de realizarem tais sinais. Eles receberam de graça e deveriam, também, repartir de graça. Que isso significa? Que os 12 não poderiam cobrar dinheiro ou quaisquer bens a fim de realizarem as curas, expulsão de demônios, etc.

Em Atos encontramos uma circunstância que reflete o que é ensinado aqui. Simão, um neófito que antes praticava artes mágicas, ao presenciar os apóstolos orando com a imposição das mãos (de sorte que os que receberam a oração foram batizados com o Espírito Santo) ofereceu dinheiro aos apóstolos em busca de tal poder:

"Então, lhes impuseram as mãos, e receberam o Espírito Santo. E Simão, vendo que pela imposição das mãos dos apóstolos era dado o Espírito Santo, lhes ofereceu dinheiro, dizendo: Dai-me também a mim esse poder, para que aquele sobre quem eu puser as mãos receba o Espírito Santo. Mas disse-lhe Pedro: O teu dinheiro seja contigo para perdição, pois cuidaste que o dom de Deus se alcança por dinheiro. Tu não tens parte nem sorte nesta palavra, porque o teu coração não é reto diante de Deus" - Atos 8.17-21

Simão queria comprar o poder que os apóstolos tinham. Mas, este poder foi dado de graça a eles, de modo que, segundo Jesus, não poderiam cobrar para o transmitir às demais pessoas. Será, então, que os 12, como ministros da Palavra, não poderiam receber salário? Vejamos o que diz o próximo tópico.


III - O TRABALHADOR É DIGNO DO SEU SALÁRIO

Ao comissionar seus apóstolos a irem às ovelhas perdidas da casa de Israel e ensiná-los a curarem os enfermos e libertarem os possessos sem cobrar nada por tais feitos (ou seja, de graça), Jesus os instruiu a como deveriam ir, orientando-os da seguinte maneira:

"Não levem nem ouro, nem prata, nem cobre em seus cintos; não levem nenhum saco de viagem, nem túnica extra, nem sandálias, nem bordão; pois o trabalhador é digno do seu sustento. Na cidade ou povoado em que entrarem, procurem alguém digno de recebê-los, e fiquem em sua casa até partirem" - Mateus 10.9-11

Que significa, então? Pois bem, Jesus havia acabado de orientá-los a não cobrarem nada pelos milagres e libertações que fariam, no entanto, os instruiu a partirem sem levar dinheiro algum (ouro, prata ou cobre). Também não deveriam levar consigo nenhum saco de viagem, nem túnica extra, sandálias ou mesmo um bordão, que são bens materiais.

O Mestre está ensinando aos 12, desta forma, que não deviam levar nenhum recurso material ou financeiro a fim de realizarem tal evangelismo. Mas por quê? Porque digno é o trabalhador do seu sustento. Em outra ocasião Jesus também enviou 70 discípulos com o mesmo objetivo; e disse-lhes assim:

"Grande é, em verdade, a seara, mas os obreiros são poucos; rogai, pois, ao Senhor da seara que envie obreiros para a sua seara. Ide; eis que vos mando como cordeiros ao meio de lobos. E não leveis bolsa, nem alforje, nem sandálias; e a ninguém saudeis pelo caminho. E, em qualquer casa onde entrardes, dizei primeiro: Paz seja nesta casa. E, se ali houver algum filho de paz, repousará sobre ele a vossa paz; e, se não, voltará para vós. E ficai na mesma casa, comendo e bebendo do que eles tiverem, pois digno é o obreiro de seu salário. Não andeis de casa em casa. E, em qualquer cidade em que entrardes e vos receberem, comei do que vos puserem diante. E curai os enfermos que nela houver e dizei-lhes: É chegado a vós o Reino de Deus" - Lucas 10.3-9

Ora, o ensinamento é que os discípulos são trabalhadores (ou obreiros) do Reino e, deste modo, estão a serviço do Senhor da seara. Ao entrarem numa cidade, os discípulos deveriam ficar na mesma casa, comendo e bebendo do que eles tivessem, pois digno é o trabalhador (ou obreiro) do seu salário. Assim sendo, anunciavam o evangelho e recebiam, em contrapartida, todo o sustento financeiro e material necessário.

Jesus os ensinou a não levarem dinheiro algum, e nem mesmo deveriam levar recursos materiais mais básicos a todo homem, como a túnica e as sandálias; mas por quê? Porque como trabalhadores, eles eram dignos de receber tudo isso daqueles a quem estavam ministrando o evangelho. 

Porém, cabe, aqui, uma observação importante. Os discípulos deveriam ficar na mesma casa, comendo do que era posto diante deles. Que isto quer dizer? Ora, que os discípulos não deveriam mudar de casa em casa procurando qual era a família mais abastada. Não poderiam, assim, ser movidos pela ganância, devendo, portanto, se contentar com o que era posto diante deles.

O trabalhador é digno do seu salário, mas não deve realizar a obra de Deus com intenção gananciosa. O Senhor prometeu sustento, mas não luxo. Além disso, o obreiro não deve cobrar, como já vimos, pelas curas e demais prodígios realizados.


IV - DIREITO DE COMER, BEBER E DEIXAR DE TRABALHAR

Paulo, em sua primeira epístola aos Coríntios, diz o seguinte:

"Será que nós não temos o direito de comer e beber? Será que não temos o direito de levar conosco uma mulher crente como esposa, como fazem os demais apóstolos, os irmãos do Senhor e Cefas? Ou será que somente eu e Barnabé temos de trabalhar para viver?" - I Coríntios 9.4-6

Quanto ao verso 6, assim traduziu a NVI: "Ou será que apenas eu e Barnabé não temos o direito de deixar de trabalhar para termos sustento?" - I Coríntios 9.6

Nesse sentido, Paulo declara que ele (e Barnabé) possuem os mesmos direitos que os demais apóstolos, isto é, direito de comer e de beber, direito de ter esposa, e também direito de deixar de trabalhar a fim de viver do evangelho, como faziam os demais apóstolos e irmãos de Jesus. Em seguida, argumenta assim:

"Quem serve como soldado às suas próprias custas? Quem planta uma vinha e não come do seu fruto? Quem apascenta um rebanho e não bebe do seu leite?" - Coríntios 9.7

Ora, nenhum soldado serve às suas próprias custas, antes, serve às custas do Império ou Reino que o enviara ao serviço. Donald S. Metz observa que "a nação ou a cidade fornece ao soldado o equipamento necessário para a guerra e paga para ele lutar. O chefe de família que planta uma vinha é o primeiro a experimentar as uvas. Na verdade, de acordo com as escrituras judaicas, uma parte da colheita pertence a ele (Dt 20.6). O pastor que apascenta o gado também vive dele.

O princípio aqui envolvido é que 'o homem que consagra seu trabalho a uma obra, deve ser capaz de viver dela'. Da lógica dessa situação torna-se cada vez mais evidente que as igrejas tinham a obrigação de fornecer o sustento material aos ministros que as serviam".² No entanto, que mais diz o apóstolo? Vejamos no próximo tópico.


V - NÃO ATARÁS A BOCA  AO BOI QUANDO DEBULHA

Nesta mesma linha, o apóstolo dos gentios seguiu em sua defesa dizendo que a Escritura afirma o mesmo que ele acabara de ensinar e, de pronto, cita a Lei de Moisés:

"Digo eu isto segundo os homens? Ou não diz a lei também o mesmo? Porque na lei de Moisés está escrito: Não atarás a boca ao boi que trilha o grão. Porventura tem Deus cuidado dos bois? Ou não o diz certamente por nós? Certamente que por nós está escrito; porque o que lavra deve lavrar com esperança e o que debulha deve debulhar com esperança de ser participante" - I Coríntios 9.8-10

Acerca disso Donald esclarece que "o boi que puxava a pesada mó do debulhador não devia usar uma focinheira, e precisava ter a permissão de comer o grão que ajudava a debulhar. [...]. Aqueles que estão envolvidos na debulha e na lavoura fazem isso na esperança de compartilhar os resultados do seu trabalho, e os apóstolos e os ministros devem fazer o mesmo".³

Isso significa que os ministros da Palavra estão a serviço do Reino de Deus, isto é, são todos trabalhadores que, ao desempenharem suas respectivas funções, o fazem na esperança de ser participantes do resultado que geraram ou produziram. Qual é, portanto, o princípio que vem sendo estabelecido até aqui? Vejamos a seguir.


VI - O QUE SEMEIA COISAS ESPIRITUAIS RECOLHE AS MATERIAIS

Paulo ensina, após citar a Lei de Moisés, que aqueles que semeiam as coisas espirituais (mensagem do evangelho) devem receber, daqueles a quem semearam, as coisas materiais: "Se nós vos semeamos as coisas espirituais, será muito recolhermos de vós bens materiais?" - I Coríntios 9.11

Nessa mesma linha escreveu aos gálatas dizendo que "o que é instruído na palavra reparta de todos os seus bens com aquele que o instrui" - Gálatas 6.6

Não o bastante, o mesmo princípio também é encontrado na epístola aos Romanos: "Isto lhes pareceu bem, e mesmo lhes são devedores; porque, se os gentios têm sido participantes dos valores espirituais dos judeus, devem também servi-los com bens materiais" - Romanos 15.27

Assim sendo, conclui-se que aqueles que ministram coisas espirituais são dignos, também, das coisas materiais. De sorte que aquele que recebe semente espiritual também semeia para com aquele que o instruiu a semente material. Ora, "se outros participam desse direito sobre vós, não o temos nós em maior medida?" - I Coríntios 9.12

Percebam que o apóstolo Paulo não está dizendo que o sustento e o salário do ministro é tão somente uma possibilidade, mas sim um direito adquirido. Corrobora com isso a Lei de Moisés, que é clara ao determinar o "não atarás a boca ao boi"! Portanto, ninguém recebeu autoridade para proibir ou reter a participação salarial dos ministros que foram enviados pelo Senhor do Reino.


VII - OS QUE ANUNCIAM O EVANGELHO DEVEM VIVER DO EVANGELHO

"Não sabeis vós que os que prestam serviços sagrados do próprio templo se alimentam? E quem serve ao altar do altar tira o seu sustento?" - I Coríntios 9.13

Aqui o apóstolo Paulo está recordando "o sacerdote e o levita no Antigo Testamento que cuidavam do templo, do ministério, e do altar. Quando alguém trazia a oferta, o dízimo, o sacrifício, o levita e o sacerdote recebiam para o seu sustento as primícias de tudo aquilo que era trazido à casa de Deus.

Os sacerdotes e os levitas recebiam o sustento financeiro dos sacrifícios e ofertas que eram trazidos ao templo. A regulamentação que governava a parte deles nas ofertas e nos dízimos está em Números 18.8-32; Levítico 6.14-17, 36; e Levítico 27.6-33. A aplicação feita pelo apóstolo Paulo é clara:

Se os ministros do Antigo Testamento, que estavam sob a lei, recebiam sustento financeiro do povo a quem ministravam, não deveriam os ministros de Deus, no Novo Testamento, sob a graça, receberem também suporte financeiro?"

Tanto deve ser assim que o apóstolo conclui afirmando o seguinte: "Assim ordenou também o Senhor aos que pregam o evangelho que vivam do evangelho" - I Coríntios 9.14

A NVI traduziu assim: "Da mesma forma o Senhor ordenou àqueles que pregam o evangelho, que vivam do evangelho" - Coríntios 9.14

Ora, o significado aqui é muito claro! "Assim ordenou também..." ou "da mesma forma o Senhor ordenou..." é uma referência direta ao versículo anterior, que diz que os sacerdotes e levitas se alimentavam e tiravam o seu sustento do próprio templo. A argumentação de Paulo é muito consistente e detalhada nesta epístola aos coríntios, não deixando sombra para erro. Seu ponto final é extremamente incisivo, pois diz que o próprio Senhor Jesus ordenou que fosse assim.

Hernandes Dias Lopes observa que "Paulo diz que este é um princípio fundamental que a igreja não pode negligenciar. Essa não é uma ordem qualquer, mas um mandamento direto do Senhor Jesus. Aquele que trabalha no ministério deve viver do ministério. A ordem é revestida da mais alta autoridade, visto que veio de Cristo".³


VIII - OS QUE GOVERNAM BEM SÃO DIGNOS DE DUPLICADA HONRA

Em outra de suas epístolas, o apóstolo Paulo diz a Timóteo que "os presbíteros que governam bem sejam estimados por dignos de duplicada honra, principalmente os que trabalham na palavra e na doutrina. Porque diz a Escritura: Não ligarás a boca ao boi que debulha. E: Digno é o obreiro do seu salário" - I Timóteo 5.17,18

Que vemos aqui? Ora, vemos Paulo ensinar que os presbíteros que governam bem, e principalmente os que trabalham na palavra e na doutrina, são dignos do seu salário; mas não é só isso, é dito que por desempenharem bem a sua função, são dignos de receber salário em dobro. O fundamento do ensino de Paulo é a própria Escritura e cita, mais uma vez, a Lei de Moisés e o ensinamento do Senhor Jesus registrado em Mateus 10.9-11 e Lucas 10.3-9.


IX - PAULO SE RECUSOU A RECEBER SALÁRIO?

Sim, Paulo se recusou a receber o salário dos crentes da região da Acaia, mas não o fez sem motivo. Que nos diz ele? Ora, ao argumentar que os ministros da Palavra têm o direito de receber salário (visto que são trabalhadores do Reino), o apóstolo Paulo disse o seguinte acerca de si mesmo e Barnabé:

"Nós não usamos deste direito; antes, suportamos tudo...". E ainda: "Eu de nenhuma destas coisas usei e não escrevi isso para que assim se faça comigo; porque melhor me fora morrer do que alguém fazer vã esta minha glória" - I Coríntios 9.12 e 15

Que está sendo dito aqui? Ora, que Paulo e Barnabé se recusaram e usufruir deste direito frente aos crentes da Acaia. Que direito? O de receber salário desses crentes. Desta maneira, Paulo e Barnabé anunciaram o evangelho, a estes, de graça (cf. II Co 11.7).

Por este motivo é que o apóstolo teve de trabalhar para obter seu sustento. Enquanto esteve na cidade de Corinto, uniu-se a Áquila e Priscila, que também sabiam fazer tendas, e ali trabalhavam. Observamos, porém, que o apóstolo sofreu diversas limitações por conta disso, chegando até mesmo a padecer necessidade e a passar fome (Fp 4.11,12).

Além disso, por ter de trabalhar para viver, o texto de Atos sugere que Paulo, talvez, se dedicasse à mensagem do evangelho apenas aos sábados: "... deixando Atenas, Paulo foi a Corinto (...). E todos os sábados Paulo falava na sinagoga, persuadindo tanto judeus como gregos" - Atos 18.4

No entanto, Deus era com ele. Assim, Paulo aprendeu a se contentar com o que tinha em mãos, suportando todas estas coisas e prevalecendo, sabendo que podia todas as coisas naquele que o fortalecia. Porém, como vimos, o salário do ministro não é somente um direito, mas uma ordenança do próprio Senhor que logo estaria despertando uma igreja que, com seus bens, pagassem e sustentassem Paulo naquela região.

Em sua segunda epístola aos coríntios o apóstolo esclarece que despojou outras igrejas, recebendo delas salário a fim de os servir (servir aos crentes da Acaia). Vejamos:

"Outras igrejas despojei eu para vos servir, recebendo delas salário; e, quando estava presente convosco e tinha necessidade, a ninguém fui pesado. Porque os irmãos que vieram da Macedônia supriram a minha necessidade; e em tudo me guardei de vos ser pesado e ainda me guardarei. Como a verdade de Cristo está em mim, esta glória não me será impedida nas regiões da Acaia" - II Coríntios 11.8-10

Quanto a isto, voltemos ao texto de Atos que nos esclarece o seguinte: "Quando Silas e Timóteo chegaram da Macedônia, Paulo se entregou totalmente à palavra, testemunhando aos judeus que Jesus é o Cristo" - Atos 18.5

Que se depreende aqui? Ora, que Silas e Timóteo trouxeram das igrejas da região da Macedônia o salário mencionado na segunda epístola aos Coríntios. Desse modo, tendo agora recursos materiais em suas mãos a fim de se sustentar, Paulo se entregou totalmente à Palavra, não tendo que se preocupar em trabalhar para viver. Mas qual foi o motivo que levou o apóstolo dos gentios a recusar receber salário dos crentes da Acaia? Atentemos para o próximo tópico.


X - POR QUE PAULO SE RECUSOU A RECEBER DOS CRENTES DA ACAIA?

Vejamos algumas expressões utilizadas pelo apóstolo que nos esclarecem o motivo dessa decisão. Em sua primeira epístola aos coríntios ele diz "esta é a minha defesa aos que me condenam" (I Co 9.3), e, ainda, que não usou de tal direito frente a esses crentes em específico a fim de não pôr "impedimento algum ao evangelho de Cristo" (I Co 9.12).

Já em sua segunda epístola, complementa que o fez em razão de não dar ocasião àqueles que as buscavam: "O que eu faço o farei para cortar ocasião aos que buscam ocasião..." (II Co 11.12). Mas, que isso significa? Significa que Satanás havia enviado falsos apóstolos e obreiros fraudulentos que se transfiguraram de ministros da justiça e, se opondo estes a ele, levantavam acusações em toda aquela região (cf. Fp 4.13-15).

A decisão de Paulo e Barnabé de não receberem salário dos crentes da Acaia não foi sem motivo. Foi, em verdade, uma decisão consciente e planejada. Se os opositores dissessem que Paulo e Barnabé pregavam o evangelho meramente por dinheiro e ganância, que crédito teriam eles diante daquele povo? Nesse sentido, a mensagem anunciada por eles (o evangelho) encontraria resistência e impedimento e, deste modo, a fim de evitar dar ocasião aos ministros de Satanás é que os apóstolos do Senhor tomaram a decisão de abster-se de tal direito.

Contudo, como já vimos, os crentes da Macedônia se responsabilizaram por garantir o sustento de Paulo, enviando-lhe seu salário a fim de que pudesse se entregar totalmente à obra do ministério. Em sua epístola aos filipenses (que viviam na região da Macedônia) o apóstolo declara que eles haviam feito bem em tomar parte em sua aflição (Fp 4.14).

Nesse sentido, Paulo também recebeu sustento/salário dos filipenses enquanto esteve em Tessalônica (Fp 4.16) e outra vez mais, recebendo os recursos de Epafrodito, de modo que declara o seguinte: "Tenho recebido e tenho abundância; cheio estou, depois que recebi de Epafrodito o que da vossa parte me foi enviado, como cheiro de suavidade e sacrifício agradável e aprazível a Deus" - Filipenses 4.18

Ora, se os crentes que partilhavam de seus bens materiais com os necessitados eram tidos como fazendo isto ao próprio Senhor (Mt 25.35-45), quanto mais aqueles que compartilham dos seus bens com os ministros do evangelho são tidos como fazendo algo suave, agradável a aprazível a Deus.


XI - É POSSÍVEL QUE O SALÁRIO SE REFIRA AO GALARDÃO?

Este tópico é importante pois algumas pessoas acreditam que o "salário" mencionado nos textos acima se referem ao galardão que receberemos no céu. No entanto, esta interpretação não é correta e apresentaremos o porquê. Vejamos:

1º - Jesus e os 12 foram sustentados com bens materiais;

2º - O Mestre disse que "o trabalhador é digno do seu salário" logo após orientá-los que não levassem dinheiro ou outros bens, isto é, eles não precisariam levar nenhuma provisão material pois, como trabalhadores do reino, eram dignos de receber todo o sustento necessário para a sua subsistência;

3º - Paulo, ao fazer perguntas retóricas à Igreja de Corinto, evidenciou que ele e Barnabé possuíam o mesmo direito que os demais apóstolos e irmãos do Senhor, a saber, direito de comer, de beber e deixar de trabalhar (secularmente) a fim de trabalhar com exclusividade para o Reino de Deus;

4º - O princípio estabelecido é que aquele que semeia coisas espirituais (o evangelho) recolhe as materiais (sustento). Em hipótese alguma podemos afirmar que isso se refere ao galardão, pois o galardão não é terreno e nem material, diferente do que vimos nos textos expostos em cada um dos tópicos acima;

5º - Comparando a Antiga Aliança com o a Nova, Paulo ensina que o Senhor ordenou o mesmo. Ora, ordenou o quê? Que assim como os sacerdotes e levitas viviam (obtendo sustento) do que era do Templo, os ministros do Evangelho deveriam fazer o mesmo;

6º - Tal sustento (ou salário) não se refere ao galardão pois este é futuro e espiritual, já aquele, conforme vimos, é presente e terreno. Além disso, atentemos para o fato de que Paulo afirma já ter despojado as Igrejas da Macedônia, recebendo delas o salário; mas o que isso implica? Que não se trata de galardão vez que este é dado (ou atribuído) pelo próprio Senhor Jesus, e não por Igrejas de regiões específicas. 

7º - Neste mesmo sentido, o apóstolo afirma que despojou e recebeu salário dos crentes da Macedônia a fim de servir aos crentes da Acaia. Se tal salário fosse espiritual, que glória haveria em recusar-se a recebê-lo? E mais, que sentido faria recusar-se a receber salário espiritual a fim de não pôr impedimento ao evangelho de Cristo? E se o salário é espiritual, que ocasião isso poderia proporcionar aos obreiros de Satanás? É ilógico!

8º - Todos os textos aqui expostos estão dentro de contextos inequívocos no que se refere a bens materiais e recursos terrenos. Dizer que o salário se refere, na verdade, a algo espiritual ou ao galardão futuro é torcer a Escritura para a sua própria condenação (cf. II Pe 3.16).

"Pois bem", diriam alguns, "se o salário é material, por que Paulo ensinou que o dinheiro é a raiz de todos os males?" Vejamos a seguir: 


XII - O DINHEIRO É A RAIZ DE TODOS OS MALES?

Certo é que algumas pessoas têm uma preocupação sincera com relação a este tema, porém, acabam interpretando mal o que nos ensinou o apóstolo. Sim, ele escreveu em sua primeira epístola a Timóteo que aqueles que querem ficar ricos caem em laço, e que o amor ao dinheiro é a raiz de todos os males.

Devemos ficar atentos a cada detalhe, irmãos. O dinheiro em si não é o problema. O problema é a "cobiça" e o "amor ao dinheiro". Que nos diz o texto? Vejamos:

"Tendo, porém, sustento e com que nos cobrirmos, estejamos com isso contentes. Mas os que querem ser ricos caem em tentação, e em laço, e em muitas concupiscências loucas e nocivas, que submergem os homens na perdição e ruína. Porque o amor ao dinheiro é a raiz de toda espécie de males; e nessa cobiça alguns se desviaram da fé e se traspassaram a si mesmos com muitas dores" - I Timóteo 6.8-10

Que Paulo está ensinando aqui? Ora, em primeiro lugar, que devemos estar contentes com o "
ter "sustento e com que nos cobrirmos". Em segundo lugar, que há pessoas que caíram em perdição e ruína por desejarem ficar ricos. Percebam que essas pessoas amavam ao dinheiro e, nessa cobiça, se desviaram da fé.

Paulo não disse que o dinheiro é a raiz de todos os males, mas disse que o AMOR ao dinheiro é que é. Ter dinheiro e riquezas terrenas não impede o homem de servir a Deus, basta olharmos para Jó, Josué, Abraão, Davi e muitos outros. Eram todos homens de posses e riquezas e, ainda assim, servos do Deus vivo.

Tomemos a exemplo o servo Jó. A Bíblia diz que, em se tratando de riquezas terrenas e materiais, Jó era o maior do que todos os do Oriente. A este respeito o Pr. Hernandes comentou que "é possível ser rico (o mais rico) e ser piedoso (o mais piedoso). O problema não é ter dinheiro, o problema é o dinheiro nos ter; o problema não é ter dinheiro no bolso, o problema é entronizar dinheiro no coração; o problema não é o dinheiro, o problema é o amor ao dinheiro".

O fato é que Paulo não está, na epístola a Timóteo, se contradizendo em seu ensino. O próprio Senhor Jesus, ao dizer que o trabalhador é digno do seu salário, também ensinou aos discípulos a não se deixarem mover pela ganância. Uma coisa não anula a outra.


CONCLUSÃO

A Escritura ensina que o trabalhador (ou obreiro) é digno de seu salário e trata-se, em verdade, de um direito adquirido. Não há na terra ninguém que possua a autoridade para revogá-lo, visto que é mandamento do próprio Senhor que aqueles que anunciam o Evangelho, vivam do Evangelho à semelhança dos ministros do Antigo Testamento.

O salário ou sustento não é futuro e espiritual, mas terreno e material. Os textos bíblicos não deixam dúvidas a este respeito. Aqueles que anunciam o Evangelho (que é espiritual) recolhem dos ministrados o sustento salarial (que é material). Nesse sentido, os ministros da Palavra não apenas podem receber salário, como possuem direito e são dignos de recebê-lo.

Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo!


REFERÊNCIAS

¹ LOPES, Hernandes Dias. Lucas: Jesus, o homem perfeito. Hagnos, p. 228.
² Comentário Bíblico Beacon. I Coríntios. CPAD, p. 312, 313.
³ LOPES, Hernandes Dias. I Coríntios: Como resolver conflitos na igreja. Hagnos, p. 176.


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