UM CRISTÃO PODE INVESTIR NA BOLSA DE VALORES?

POR LUCAS NUNES
UM CRISTÃO PODE INVESTIR NA BOLSA DE VALORES?

Um de nossos irmãos leitores do blog, nos fez a seguinte pergunta: "há algum empecilho bíblico em investir na Bolsa de Valores?"

Antes de entrarmos na questão específica envolvendo investimento em bolsa de valores, vamos apresentar alguns textos que falam como um cristão deve se portar com relação ao dinheiro e qual deve ser a finalidade dos ganhos financeiros/materiais. Caso o leitor queira uma resposta direta a respeito do assunto, pode se dirigir ao subtítulo  investimento em bolsa de valores. Contudo, julgamos importante definir uma base primeiro.

Inicialmente, o trabalho foi ordenado por Deus. Não é resultado da Queda: “E tomou o Senhor Deus o homem e o pôs no jardim do Éden para o lavrar e o guardar” (Gn 2.15). Fomos criados para dominar sobre a criação: “E disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; e domine sobre os peixes...aves...gado...” (Gn 1.26). A palavra dominar se traduz como gerenciar, administrar a criação com algum propósito.

Com a Queda, os recursos se tornaram escassos, de modo que a economia surge a partir de então. A produtividade da terra se tornou limitada: “...maldita é a terra por causa de ti; com dor comerás dela todo os dias da tua vida. Espinhos e cardos também te produzirá...” (Gn 3.17-18).

Economia é um conceito que surge de coisas que são finitas. Economizar para ter ou render, de modo que não falte ou que sobre um pouco mais para um tempo futuro. Na origem do mundo, o homem e a mulher viviam no tempo eterno, de forma que não havia preocupação econômica, inclusive com o tempo. Com a Queda, o tempo começou a ser contado e entrou na dinâmica econômica.

Assim, o que era eterno passou a ser temporal. A abundância deu lugar à escassez, tornando a tarefa de domínio (gerenciamento/administração) da criação trabalhosa, árdua, difícil.

Com entendimento da finitude das coisas, o conceito de planejamento também precisou ser desenvolvido. Se eu não trabalhar hoje, preparar a terra e semear, o que irei comer no amanhã?

Mas o Senhor, em Sua infinita bondade e misericórdia não desampara a humanidade, prometendo enviar “...chuvas a seu tempo; e a terra dará a sua novidade, e a árvore do campo dará o seu fruto” “Se andardes nos meus estatutos, e guardares os meus mandamentos...” (Lv 26.3-4).

Dessa maneira, tendo por base a obediência ao Senhor, e se assim for da vontade Dele, “Os planos bem elaborados levam à fartura...” (Pv 21.5).

Primeiramente, a fartura financeira/material é resultado da ação de Deus. De nada adianta planejarmos, trabalharmos, administrarmos bem, se Deus não nos preservar a saúde, a paz e a estabilidade do meio ambiente, por exemplo.

Bem conhecemos a história do empobrecimento de Jó, ferido por uma “...chaga maligna, desde a planta do pé até ao alto da cabeça” (Jó 2.7), ou de Salomão, que prosperou por haver paz “...em todas as bandas em roda dele” (1 Rs 4.24). Com relação à estabilidade do meio ambiente, basta que o Senhor deixe de enviar chuva para que toda a cadeia de suprimento seja afetada – poderíamos também mencionar praga de gafanhotos, furacões, terremotos, etc.

Tendo saúde, paz, estabilidade ambiental e outras condições dadas por Deus, juntamente com planos bem elaborados, é possível ter fartura. O grande problema da humanidade não é a riqueza, mas sim, colocar seu coração na riqueza (Sl 62.10). “...o amor do dinheiro é a raiz de toda espécie de males; e nessa cobiça alguns se desviaram da fé...” (1 Tm 6.10).

Davi glorificou o Senhor dizendo “...porque teu é tudo quanto há nos céus e na terra...” (1 Cr 29.11), trazendo-nos o entendimento de que tudo que temos não é nosso. Tudo é do Senhor. “Porque dele, por ele, e para ele são todas as coisas...” (Rm 11.36). Nosso coração não deve estar no dinheiro, mas em glorificar o Senhor por meio das nossas obras: “E, tudo quanto fizerdes, fazei-o de todo o coração, como ao Senhor e não aos homens...” (Cl 3.23). Se nos planejamos, estudamos, trabalhamos, ajuntamos, negociamos, para glorificar ao Senhor devemos fazê-los.

Podemos tomar como bom exemplo uma mulher, que pela própria bíblia é chamada de “virtuosa”. Há virtude nela, grandes qualidades. O que ela faz? Provérbios cap. 31 descreve ela trabalhando (v.13), acordando cedo (v.15), comprando (16), provando mercadorias para saber se é uma boa compra (v.18), repartindo com os necessitados (v.20), produzindo (v.22), vendendo (v.24) e, principalmente, temendo ao Senhor. Seu coração está confiado e temente no Senhor. Essa mulher será louvada (v.30).

Por fim, vamos a um ensino que pode ser extraído da parábola dos dez talentos (Mt 25.14-30): “um homem, partindo para fora da terra, chamou os seus servos, e entregou-lhes os seus bens, e a um deu cinco talentos, e a outro, dois, e a outro, um, a cada um segundo a sua capacidade, e ausentou-se logo para longe” (v.14-15). “...o que recebera cinco talentos negociou e ganhou outros cinco. Do mesmo modo, o que recebera dois ganhou outros dois. Mas o que recebera um, saindo, abriu uma cova e escondeu o dinheiro do seu senhor” (v.16-18). “...tempo depois, veio o senhor daqueles servos e ajustou contas com eles” (v.19). “...o que recebera cinco talentos trouxe-lhe outros cinco...o que tinha recebido dois talentos, disse: Senhor...ganhei outros dois talentos...” (vs.20 e 22). A eles, o senhor diz que são servos bons e fiéis.

“Mas, chegando também o que recebera um talento disse: Senhor...escondi na terra o teu talento...” (vs.24 e 25). Esse servo é considerado pelo senhor como “mau e negligente” (v.26).

Após as palavras de louvor aos servos fiéis e de reprovação ao infiel, ocorre o julgamento do infiel, sendo lançado fora da presença do senhor (v. 30) O senhor dessa parábola tipifica nosso Senhor Jesus. A cada um, segundo a sua capacidade, ele dá dos seus tesouros espirituais e, também, materiais. Vejam, porém, que esses valores não pertencem aos servos, mas sim ao senhor. Os servos são apenas mordomos, administradores, exercem domínio sobre algo que não é deles.

Essa administração dos bens do senhor é por um tempo determinado – o tempo da vinda do senhor. Para nós, o tempo da vinda do senhor é o momento do arrebatamento da igreja ou da nossa morte. Até esse tempo chegar, devemos ser servos diligentes na administração desses valores para aumento do “patrimônio” do nosso Senhor.

Se recebemos dons e capacitação espiritual para evangelizar, ensinar, tocar instrumentos e entregar profecias, por exemplo, no dia da prestação de contar devemos nos apresentar com isso e com os resultados disso para nosso Senhor. Quantos foram evangelizados e ensinados? Quantos libertos e salvos através do louvor? Quantos exortados, consolados e edificados pela palavra da profecia?

Da mesma forma, será exigida uma prestação de contas referente à capacidade dada a cada servo para administrar bênçãos materiais. Essas bênçãos foram gastas no deleite próprio ou foram usadas para glorificar o Senhor? Houve generosidade, ofertas voluntárias e atos de amor através dessas bênçãos “emprestadas” pelo Senhor?

Que no dia do nosso encontro com o Senhor, possamos ser dignos de sermos chamados servos bons e fiéis!

INVESTIMENTO EM BOLSA DE VALORES

Após essa exposição sobre a forma como um cristão deve se portar com relação ao dinheiro e qual deve ser a finalidade dos ganhos financeiros/materiais, passemos especificamente à relação com investimento em bolsa de valores.

A bolsa de valores é o lugar onde são negociadas ações de empresas. Todos os dias, milhões de ordens de compra e venda são executadas. Mas o que leva as pessoas à bolsa? E qual o interesse da empresa em ter suas ações listadas na bolsa de valores? Bolsa não é um lugar de apostas parecidas com jogos de sorte e azar?

Primeiramente, acredito que não há nenhuma dúvida por parte dos irmãos sobre a licitude de se abrir uma empresa. Uma empresa que é criada, possui despesas e custos, que são cobertos por investimento financeiro por parte do proprietário. Caso ela gere lucro, parte desse lucro pode ser destinado à própria empresa para que ela cresça, gerando mais emprego e renda.

Acontece que, quando a empresa quer crescer e seus lucros não são suficientes para suprir a necessidade de investimento, ela tem que recorrer a empréstimo com bancos ou abrir seu capital na bolsa de valores.

Portanto, bolsa de valores é o lugar onde uma empresa busca dinheiro para crescer, e em troca, oferece participação nos seus lucros aos acionistas (aqueles que compraram as ações). Após receber esse dinheiro por colocar suas ações na bolsa de valores, essas ações ficam disponíveis para serem negociadas.

Assim, fundamentalmente, quem compra uma ação está ajudando uma empresa a crescer.

Se não há dúvida quanto à licitude de se abrir uma empresa, não deveria haver esse pensamento quanto ao investimento na bolsa de valores, com uma ressalva: um cristão pode abrir qualquer tipo de empresa? Convém ao cristão abrir uma empresa para vender bebidas alcoólicas ou para realizar shows em casas noturnas, por exemplo?

Da mesma forma, dentro da bolsa de valores há diversas empresas nas quais o investidor deve analisar e decidir se quer ou não investir. Há empresas de bebidas, cannabis, construtoras, farmacêuticas, locadoras de veículos, bancos, mineradoras, geradoras de energia, etc. Um investidor deve pensar: quero ter parte do lucro dessa empresa?

Basicamente, isso é o que significa investir em bolsa de valores.

Contudo, há diversas operações que podem ser realizadas. Existem pessoas que ficam o dia inteiro com os olhos na tela para verem o sobe e desce de preços. Alguns até ganham dinheiro nessas movimentações de curto prazo, outros perdem.

Mas o objetivo desse estudo é expor a essência do investimento em bolsa de valores. A bolsa de valores é um lugar onde se negociam ações de diversas empresas. Selecionando empresas idôneas, que não desenvolvem atividades contrárias aos princípios cristãos, julgamos não haver pecado algum.

Na prática, aqueles que investem com objetivos de longo prazo tem colhido bons retornos, como por exemplo, ter uma renda complementar na aposentadoria ou poder pagar uma faculdade para um filho. Se uma empresa apresenta lucro, parte dele será distribuído ao acionista.

Vamos deixar um exemplo: hoje, nossa taxa Selic é próxima a 2% ao ano. Qualquer investimento em renda fixa (poupança, tesouro Selic, CDB, etc..) renderá próximo a isso. Por lei, uma empresa listada na bolsa deve distribuir pelo menos 25% de seu lucro ao acionista (através de dividendos ou juros sobre capital próprio). Há empresas hoje que distribuem com recorrência algo em torno de 6% ao ano.

Por fim, não se deseja aqui propagar o estímulo ao investimento em bolsa de maneira desmedida, irresponsável. Sempre devemos ser prudentes poupando, dentro da possibilidade de cada um, algum valor como reserva de emergência. Somos sujeitos a eventos fora do planejamento como problemas de saúde, sinistros, etc.

Mas, dentro da realidade e capacidade de cada um, investir uma parte em ações pode ser um bom plano para horizontes de longo prazo – maiores que 5 anos.

Caso o leitor tenha maior interesse no tema, há diversas fontes de estudo na internet. Contudo, aconselhamos se afastar de tudo que envolve promessas de ganhos em curto espaço de tempo.

Lembre-se sempre dos princípios que norteiam os atos de um cristão: essa atividade glorifica a Deus? Qual é o objetivo dela? O fruto desse investimento poderá ser apresentado ao Senhor em forma de ofertas, edificação da família, mais tempo para se dedicar à obra de Deus?

3 comentários:

  1. Muito esclarecedor. Entendo que as operações chamadas de "day-trade" que também são negociadas na Bolsa de Valores, estão muito relacionadas a questão do "jogo de azar", visto que essas ações necessariamente tem que ser negociadas e fechadas no mesmo dia.Inclusive recentemente houve um caso nos EUA que um jovem apostou uma quantia extremamente vultuosa nesse modelo de investimento e perdeu todo o investimento e em consequência disso o mesmo cometeu suicídio.

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    1. Ola meu irmão, Day Trade não é cassino e nem jogo de azar, se esse jovem entrou sem preparo nenhum, sem gastar pelo menos 6meses de estudo com certeza o fez perder tudo, inclusive se investir nas ações erradas com swing trade ou bay and hold pode levar a pessoa a.perder tudo também...o grande problema estao nas pessoas que entram achando que vão ganhar dinheiro facil e ficarem ricas da noite pro dia sem estudar aquilo que estão fazendo...estudem muito antes de investir seja day trade ou bay and hold, é uma profissao como outra qualquer, se vc colocar uma roupa de medico
      e entrar numa sala de cirurgia pra fazer um procedimento sem ter passado pela faculdade de Medicina, o resultado vai ser um desastre. Agora, eu não concordo que servos, pastores e diáconos que entram em Pirâmides financeiras, pois isso sim é ilegal e não requer estudo nenhum...e muitos destes já entraram nessa.
      Otima argumentação nesse artigo. Um grande abraço

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    2. Operações de curtos prazo não estão associadas aos fundamentos da empresa. O investidor que considera o fundamento de empresas para o longo prazo aplica a análise fundamentalista. Operações de curto prazo são realizadas com análise técnica (gráficos de tendência). O objetivo principal desse estudo foi abordar o investimento em bolsa sob a ótica espiritual. Julgo que não há nada contra operar para o longo prazo ou curto prazo (considerando os princípios abordados nesse estudo). Mas relacionado ao risco, com certeza movimentações de curto prazo são mais arriscadas, pois desconsideram os fundamentos da empresa. "Quem planeja com cuidado tem fartura, mas o apressado acaba passando necessidade" (Pv 21.5 -NTLH)

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