VAI TER COM A FORMIGA, Ó PREGUIÇOSO

POR RODRIGO H. C. OLIVEIRA


Provérbios é um livro que, sem sombra de dúvidas, traz àqueles que o leem riquezas inigualáveis. Seus temas são sempre relevantes e atuais, mas não só isso, eles "cobrem todo o horizonte dos interesses práticos do cotidiano, tocando em cada faceta da existência".

Assim, "o homem é ensinado a ser honesto, diligente, bom vizinho, cidadão ideal e modelo de marido e pai. Acima de tudo, o sábio deve andar de forma reta e justa diante do Senhor".¹ Sua riqueza, apesar de grandiosa, é exposta de forma simples e direta de tal modo que vem a ser proveitoso para todas as idades.

Earl C. Wolf comenta que "o livro de Provérbios está repleto de sinais de advertência, luzes vermelhas piscando para nos alertar do perigo e do desastre à frente".² Esse é caso do capítulo 6. Aqui podemos observar quatro dessas luzes vermelhas piscando e, uma delas, nos diz claramente: Não Seja Preguiçoso!


O CONSELHO DIVINO

"Vai ter com a formiga, ó preguiçoso; olha para os seus caminhos, e sê sábio" Provérbios 6.6

Salomão está nos convidando, dessa forma, a aprendermos com uma sábia pedagoga: a formiga. Mas antes disso, o que significa ser uma pessoa preguiçosa? A palavra hebraica aqui utilizada para "preguiçoso" (heb. עָצֵ֑ל - ‘ā·ṣêl) refere-se àqueles que possuem aversão ao esforço ou trabalho e por isso são "lentos e desleixados". 

Se o preguiçoso quiser ser sábio, deverá olhar para a formiga e aprender com ela. "Pois ela, não tendo chefe, nem guarda, nem dominador, prepara no verão o seu pão; na sega ajunta o seu mantimento" - Provérbios 6.7,8

Que grande lição! A formiga sabe muito bem que não poderá trabalhar no inverno. Elas são prudentes e vivem de modo sábio. Não são negligentes, aliás, muito pelo contrário, são precavidas e aproveitam enquanto podem trabalhar a fim de ajuntar o mantimento para o inverno.

E o que podemos aprender com isso? Ora, é necessário entendermos que as formigas agem com antecedência e planejamento. Elas não precisam de chefes nem de comandantes para lhes mandarem trabalhar. E por que elas trabalham então? A resposta é simples: para não morrerem de fome quando o inverno chegar.

Não devemos, portanto, deixar para amanhã o alimento que podemos colher no dia de hoje. É necessário aproveitarmos o tempo que Deus nos deu a fim de buscarmos a provisão para os momentos de inverno. Há pessoas que passam por dificuldades e crises porque não trabalham nem se esforçam para conseguir mais. Vivem de modo descuidado e negligente e por isso se mostram como pessoas loucas e insensatas. Isso não é diferente em relação à vida espiritual.

Muitos têm caído em crises e ciladas. Alguns têm até perdido a fé. Mas qual é o motivo? Não se alimentam da Palavra, não ajuntam o mantimento para os momentos de inverno. Dessa forma, quando a tentação vem, não têm a resposta certa para vencerem (cf. a vitória pela Palavra em Lucas 4.1-13). Quando o inverno da dor aparece, não têm o sustento e refrigério da parte do Senhor. Mas por que? Porque enquanto era verão não ajuntaram o mantimento bíblico no celeiro de seus corações.


AS DESCULPAS DO PREGUIÇOSO

"Ó preguiçoso, até quando ficarás deitado? Quando te levantarás do teu sono? Um pouco a dormir, um pouco a tosquenejar; um pouco a repousar de braços cruzados..." - Provérbios 6.9,10

O Pastor Hernandes Dias Lopes observa que "o preguiçoso é tratado aqui como uma pessoa cujo único objetivo é dormir e desfrutar os deleites do descanso. Ele quer apenas os confortos da vida, e não o peso da responsabilidade. Quer apenas desfrutar as benesses da existência, e não a labuta do trabalho pesado. Quer apenas desfrutar da farra do sono, sem ter semeado diligentemente com o suor do seu rosto.

O preguiçoso anda cansado e tem necessidade de dormir. O trabalho para ele é um castigo. Os desafios da vida são para ele barreiras intransponíveis. Seu projeto de vida é desfrutar de uma cama macia e render-se a um sono benfazejo. Nada de estresse. Nada de esforço. Nada de trabalho. Dormir e dormir é o seu lema. Gozar a vida é sua aspiração.

O preguiçoso não é previdente como a formiga. Não faz provisão para o tempo do inverno. Não ajunta em celeiros para os dias da crise. Só pensa no agora. Só investe em seu descanso. Só quer dormir para acordar e dormir novamente. Seu ciclo de vida não vai além do um pouco para dormir, um pouco para tosquenejar, um pouco para cruzar os braços em repouso".³ 

Mais uma vez observamos que isso não é diferente em relação à vida espiritual. Nada é tão lamentável como desperdiçar as chances que Deus nos tem dado. Enquanto for verão haverá a oportunidade. Mas devemos valorizá-la. O Profeta nos diz: "Buscai ao Senhor enquanto se pode achar, invocai-o enquanto está perto" - Isaías 55.6

Sendo assim, portanto, busquemos o mantimento com presteza e urgência. Trabalhemos agora, enquanto é tempo, enquanto é verão, enquanto é dia, pois "a noite vem, quando ninguém pode trabalhar" - João 9.4


A RECOMPENSA DA PREGUIÇA

"Assim sobrevirá a tua pobreza como o meliante, e a tua necessidade como um homem armado" - Provérbios 6.11

Pobreza é a recompensa que aguarda o preguiçoso. Trata-se de uma lei inevitável: o homem colhe aquilo que semeia (Gl 6.7,8) e na medida em que semeia (II Co 9.6). E isso se mostra fático tanto na vida física quanto na vida espiritual. Há, na verdade, um padrão demonstrado nas Escrituras. A Bíblia diz que "o que semear a perversidade segará males" (Pv 22.8).

O Profeta veterotestamentário também nos alerta: "Semeai para vós em justiça, ceifai segundo a misericórdia; lavrai o campo de lavoura; porque é tempo de buscar ao Senhor, até que venha e chova a justiça sobre vós. Lavrastes a impiedade, segastes a iniquidade, e comestes o fruto da mentira; porque confiaste no teu caminho, na multidão dos teus poderosos" - Oséias 10.12,13

"Portanto comerão do fruto do seu caminho, e fartar-se-ão dos seus próprios conselhos" (Pv 1.31). Mas em que há de se fartar o preguiçoso? Ora, a sua herança é somente pobreza e necessidade. Aquele que não planta não colhe. Aquele que não trabalha não come. Na crise terá falta. No inverno terá fome. O Rei Salomão está, em verdade, destacando duas recompensas que aguardam os preguiçosos: 

A primeira é "a pobreza repentina e inesperada. O ladrão vem sem aviso prévio... A prosperidade é fruto do trabalho e da bênção de Deus. Quem cruza os braços para trabalhar e quer apenas gozar os benefícios do sono, sem o peso do trabalho, enfrentará pobreza. Deus não premia a preguiça nem galardoa os preguiçosos.

O segundo resultado da preguiça é a necessidade. Ela vem como um homem armado. É inescapável e inevitável. A formiga não passa fome no inverno porque laboriosamente ajuntou sua provisão na ceifa. Mas o preguiçoso desfruta os deleites do sono enquanto os trabalhadores, com fadiga e suor no rosto, sofrem as agruras do sol e o desconforto das chuvas.

Porém, no dia da crise, aqueles que preveniram desfrutarão do trabalho de suas mãos, mas o preguiçoso passará necessidade".⁴


CONCLUSÃO

"As formigas são um povo impotente; todavia, no verão preparam a sua comida" - Provérbios 30.25

Assim também somos nós: um povo impotente. No entanto, o conselho de Deus nos adverte contra a tentação de cedermos à preguiça. Não devemos descansar e dormir enquanto deveríamos estar trabalhando. Precisamos entender que se a preguiça nos distanciar de nossas responsabilidades, a pobreza e a necessidade poderão, em breve, assolar a nossa alma e nos impedir de desfrutarmos do descanso legítimo que poderíamos ter no momento oportuno.

O Apóstolo Paulo escreveu aos Tessalonicenses um mandamento no qual diz que "se alguém não quiser trabalhar, não coma também. Porquanto ouvimos que alguns entre vós andam desordenadamente, não trabalhando, antes fazendo coisas vãs. A esses tais, porém, mandamos, e exortamos por nosso Senhor Jesus Cristo, que, trabalhando com sossego, comam o seu próprio pão" - II Tessalonicenses 3.10 - 12

Isto é, comam do fruto do seu próprio trabalho. Aquele que não trabalha não come, e aquele que pouco trabalha pouco também comerá. É, portanto, imprescindível que se quisermos ter mantimento necessitamos de trabalhar. Mas quanto mais trabalharmos, mais fartura teremos.

Assim como é necessário trabalhar para comermos pão, é necessário trabalhar a leitura bíblica para colhermos o alimento da alma. Também é necessário trabalharmos a oração para colhermos o fruto das respostas. Não nos enganemos, irmãos, é preciso trabalhar a fim de colhermos das riquezas espirituais. Muitos estão anêmicos e famintos, mas não porque há falta de mantimento no celeiro de Deus.

Estão famintos porque fazem como o preguiçoso que "mete a mão no prato e não quer ter o trabalho de a levar à boca" - Provérbios 26.15

Atentemo-nos, pois, para isso.


Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo!


NOTAS

¹ W. T. Purkiser, et al., Exploring the Old Testament (Kansas City: Beacon Hill Press, 1955, p.255).
² Earl C. Wolf, Comentário Bíblico Beacon, CPAD, p. 371.
³ Hernandes Dias Lopes, Provérbios - Manual de Sabedoria Para a Vida, Hagnos, p. 114,115.
⁴ Hernandes Dias Lopes, Provérbios - Manual de Sabedoria Para a Vida, Hagnos, p. 115.

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