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sábado, 21 de março de 2015

ENTRE A TENDA E O ALTAR

ENTRE A TENDA E O ALTAR
“1 Ora, o Senhor disse a Abrão: Sai-te da tua terra, e da tua parentela e da casa de teu pai, para a terra que eu te mostrarei (...) 8 E moveu-se dali para a montanha á banda do Oriente de Betel, e armou a sua tenda, tendo Betel ao ocidente, e Ai ao Oriente; e edificou ali um altar ao Senhor, e invocou o nome do Senhor ”
(Gênesis 12: 1 e 8)





Ao abrir o primeiro livro do Antigo Testamento, encontrar-se-á uma narrativa na qual se vê, em sua maior parte, a história de sete patriarcas (Abel, Enoque, Noé, Abraão, Isaque, Jacó e José), numa sintonia intrigante em conexidade com a história da igreja contemporânea, marcando, com alegorias, símbolos e tipos a doutrina e a história da redenção humana, pelo sacrifício de Jesus, por administração do Espírito Santo, encontrada em o Novo Testamento, máxime porque em Hebreus 10, encontrar-se-á a assertiva segundo a qual a lei é a “sombra dos bens futuros” (Hb. 10:1). Deveras, aqui não será palco para essa dissertação. O que se há de trazer nesse pequeno espaço, é um detalhe da vida de um desses patriarcas: Abraão.

Naquele momento histórico veterotestamentário, no início da era patriarcal pós-diluviana, Deus apareceu a Abrão, em Ur dos Caldeus (Caldéia), terra idólatra, e emitiu um quádruplo comando, convidando-o para sair do “conhecido” e ir para o “desconhecido”, chamado no qual prescreveu: 1) “sai-te da tua terra”; 2) “... da tua parentela”; 3) “... da casa de teu pai” e vai 4) “para uma terra que eu te mostrarei”, comando divino para o qual Abraão não atentou, totalmente, seguindo o seu coração, obedecendo apenas ao primeiro comando: “sai-te da tua terra”. Contudo, na saída, levou consigo o seu pai Tera (levou a “casa de seu pai”) e levou seu sobrinho Ló (levou a “sua parentela”). Tudo indica que ele deveria levar apenas Sarai, sua esposa. Decerto, Abrão, num primeiro momento, intentou materializar, simbolicamente, a adoração e essa não era a vontade de Deus. Isso ele veio a entender mais adiante.

Com a desobediência de Abrão à ordem do Senhor, ele não chegou muito longe, até que o outro comando foi cumprido independentemente da vontade de Abrão, quando o seu pai, Tera, morreu em Harã (cap.11: 32), instigando Abrão a prosseguir a sua peregrinação, aos setenta e cinco anos de idade (v.4). Necessário se fez a morte de Tera, sem a qual a profecia não se cumpriria na vida de Abrão. Passou, num momento seguinte por Siquém (do hebraico: “ombro”, nas montanhas de Efraim), até ao carvalho de Moré (um dos significados é: “mestre”) (v.6). Então, Abrão deveria confiar e debruçar-se nos “ombros” do Pai, tendo-O como o seu “Mestre”.

Nessa linha de raciocínio, urge ressaltar que, mais adiante, no capítulo treze, versículos de sete a doze, Abraão, após uma contenda entre pastores de ovelhas, separou-se de Ló, Nesse episódio da separação, Ló escolheu, portanto, seguir para as campinas no Oriente, indo para Ai (em direção a duas cidades que mais tarde seriam destruída: Sodoma e Gomorra) e Abraão, por outro lado, em sentido diametralmente oposto, escolheu o Ocidente, caminhando em direção à Canaã. Assim é que, o ser humano abraça as suas escolhas e nesse processo, às vezes escolhe o caminho mais fácil (“campinas”), mas Abraão fez uma boa escolha, conquanto fosse montanhosa a vereda que abraçou.

Como um parêntesis que aqui se abre, significativo registrar que até então, o seu nome era Abrão e o de sua esposa era Sarai, pois que no capítulo dezessete desse mesmo livro bíblico, o Senhor altera o nome hebraico de Abrão para Abraão (cap.17: 5) e o de sua esposa Sarai para Sara (cap.17: 15), de sorte que Deus acrescentou uma letra ao nome de Abrão .Deus não tira, mas acrescenta a Abrão a letra Hei, esta é a letra que representa a vida, e seu valor numérico é 5. Deus vai retirar da sua vida e vai inseri-la em Abrão.
Sarai teve que aprender a não interferir no projeto de Deus. Foi necessário que o Senhor tirasse o yod que vale 10 e em seu lugar inserisse o Hei que vale 5, mas que é a representação da vida. E foi isto que aconteceu que o Senhor visitou Sara e ela concebeu a Isaque.Nessa alteração, o significado do nome patriarcal passa de Abrão (= “pai exaltado”) para Abraão (“pai de uma multidão”). Então, de uma individualidade egocêntrica (“pai exaltado”) a sua identidade é transmudada para uma coletividade (“pai de uma multidão”), proporcionando uma idéia de “corpo”.



De seu turno, o nome de Sarai, cujo significado, no hebraico é “querelante, a que se queixa”, tornou-se, doravante, Sara, cujo significado é “princesa”, alterando, destarte a sua identidade nominal, fato que, nos tempos bíblicos, era importante, uma vez que marcava a identidade social e pessoal.

Com efeito, o texto ora sob comento, retrata um chamado, mas um chamado diferente: o chamado de Deus na vida de um homem! E a salvação é a revelação da Graça oriunda de um chamado dirigido ao pecador, o qual responde pela fé, dentro da Aliança. Naquela ocasião Abraão vivia em Ur dos Caldeus, uma cidade dedicada a Nanar, o deus-lua e o Senhor pretendia que Abraão conhecesse o verdadeiro “Sol da Justiça”, Aquele que possui Luz própria! E Abraão não havia feito nada por merecer, pois a Graça é dom gratuito de Deus; não é recompensa. Vai dizer Jesus, em João 15:16: “Não fostes vós que me escolhestes a mim; pelo contrário, eu vos escolhi a vós outros”.

Ao contrário do comando de Deus, Abraão levou consigo o pai e o seu sobrinho Ló, E isso causou uma série de problemas, pois Deus pretende operar um novo nascimento na vida do pecador, de sorte que ele deve deixar a sua velha natureza (simbolicamente, o “pai”), abandonando os seus costumes antigos. Decerto, a jornada da fé, reclama o abandono total do profano, do passado que já não existe, em separação, apartando-se do mal para uma dedicação total àquilo que é santo.

Após a morte de Tera, pai de Abraão, na localidade denominada Hará, Abraão teve que sair daquela terra da morte de seu pai, pois Deus o instigara a prosseguir a peregrinação com a sua “princesa” para uma terra cuja localização não foi revelada para aquele patriarca, de modo que ele deveria andar pela fé, confiante em Deus, sem indagar do Senhor acerca dos caminhos pelos quais Deus o levaria e o atravessaria. Então, não se pergunta: “por quê?”, mas “para quê?”. Sempre há um propósito de Deus nos acontecimentos, ainda que o ser humano não entenda momentaneamente. Fé exige renúncia (até de dogmas religiosos) e compromisso do adorador.

Sem embargo, houve um momento, na vida daquele casal, que surgiu a necessidade de deixar Harã, terra da morte, rumo à terra de Canaã (do hebraico: “plano”), nome dado a um neto de Noé, que também enfrentou um “êxodo”, porém diluviano. Deveras, a Bíblia não relata a longa jornada de Abraão de Hará para Canaã, porque o destino era mais importante, pois o destino do servo de Deus é a Canaã celestial. Contudo, houve um momento em que teve que enfrentar os cananeus.

Às vezes, Deus leva os seus servos ao lugar de seus conflitos internos (“cananeus”), para o lugar de seus maiores, temores, com a finalidade de enfrentar, sem medo, num exercício de fé, os “fantasmas” que assombram o coração humano em suas aflições. A par disso, houve um trecho da caminhada, descrito no versículo oito, como o texto em epígrafe, rico em detalhes, que os olhos se voltam, aqui e agora, para algo interessante, conforme se verá adiante.

Quando se percebe atentamente os rumos e os passos que Abraão adotou, verificar-se-á que dois elementos altamente significativos sempre acompanhavam Abraão ao longo de sua caminhada com a sua querida esposa. Fosse onde fosse lá estava aquele destemido patriarca acompanhado de dois importantes elementos que marcaram brilhante e simbolicamente a sua vida nômade: a tenda e o altar. Quem quisesse seguir Abraão, em seus rastros e encontrá-lo em sua caminhada deveria seguir a tenda e o altar. Tal é a marca do servo de Deus, no mundo contemporâneo: “a tenda e o altar”. Entrementes, esses dois elementos, a rigor, se contrastavam. Essa dicotomia intrigante fazia parte da vida de Abraão.

Ao volver o olhar para a “tenda” ter-se-ia que admitir a efemeridade da vida humana, uma vez que ela revela o estado de “peregrino” com o qual o servo de Deus convive, sabendo que aqui não é o seu lugar Na eternidade, ao lado de Deus é o seu lugar. Isso indica que o crente em Jesus é um cidadão do céu. Aqui ele está de passagem. Curioso, a propósito, que dois verbos se ligavam aos dois elementos. À “tenda” se ligava o verbo “armar”; ao “altar” se ligava o verbo “edificar”.

Para o verbo “armar”, existe o oposto “desarmar”. Contudo, para o verbo “edificar”, não existe o “desedificar”; existe o “destruir”, de sorte que a “tenda”, cujo simbolismo leva o crente a entender o seu estado passageiro, era armada e desarmada onde quer que Abraão fosse e passasse. Assim é o servo de Deus, ele vai armando a sua “tenda” aqui e ali, ele vai construindo a sua vida, com as escolhas que faz, ao longo de sua caminhada, mas a tenda é presa no chão por cordas e amarras. Tais são as conquistas do homem nesta vida: passageiras. Ele adquire família, adquire bens, alcança posições sociais, faz os seus negócios etc. Assim, ele vai “armando e “desarmando” a sua tenda, mas não pode esquecer-se de edificar um altar ao Senhor em cada local de passagem.

Detalhe a ser registrado é que a tenda era “de Abraão” (havia o pronome possessivo), mas o altar; não. O altar era exclusivo do Senhor! Não podia ser “desedificado” ou “destruído”. O altar não era preso ao chão por cordas! Era erigido para o alto, com pedras sobre pedras! Assim é que, o altar “sussurrava nos ouvidos de Abraão” que ele era cidadão do céu e adorava a um Deus vivo! Nesse sentido, Wiersbe, em excelente obra literária  acentua:

“Abraão testemunhava a todos que era separado deste mundo (a tenda) e consagrado ao Senhor (o altar). Sempre que Abraão abandonava sua tenda e seu altar, metia-se em apuros”.

Entrementes, num dado momento daquela jornada abraãmica o patriarca se coloca entre duas localidades: Betel a oeste e Ai a leste (cf. Gn. 12:8) e para um discernimento da mensagem que se pretende transmitir, em linguagem simbólica e figurativa, tal como a doutrina transmitida pelo Senhor Jesus, através de parábolas, há de se mergulhar no sentido etimológico dos nomes com os quais as cidades foram rotuladas.

“Betel”, cidade da Palestina, a oeste de Ai, ao sul de Silóe e perto de Macmás, em seu étimo hebraico (bete, nome da segunda letra do alfabeto hebraico, significa “casa” e El, do hebraico, significa “Deus”), significa, portanto, na junção: “Casa de Deus”. “Ai”, de seu lado, significa, em hebraico: “montão, ruínas”. Há momentos, na vida do ser humano, em que ele está entre “Betel” e “Ai”, de maneira que só ele pode estabelecer a escolha que vai abraçar em sua vida. Ou vai para os caminhos do Senhor ou vai para um caminho de ruínas.
 “o altar e a tenda dão-nos os dois grandes traços do caráter de Abraão: adorador de Deus e estrangeiro na terra”. Sob esse viés, é importante lembrar de que quando o texto bíblico se refere à tenda, insere o pronome possessivo “sua”, vale dizer, a tenda era de Abraão, pois ele a confeccionava segundo a sua medida, segundo a sua vontade e seus modelos mentais. O altar, não! O altar não era de Abraão; ele era de Deus! Então, deveria seguir, tão só, o modelo de Deus!

Quando Abraão se deslocava, desmontando o acampamento, ele desmanchava a sua tenda e a colocava em seus ombros, mas o altar ficava edificado; ele não o destruía, nem era suscetível de “desmontagem”. Quando vendavais sopravam por aquelas bandas palestinas, os vestígios da tenda eram jogados à poeira do tempo; o altar, não; o altar permanecia! A tenda era uma montagem portátil que Abraão possuía e a carregava junto de seu corpo. O altar era plantado em cada ponto da caminhada como um monumento de adoração em gratidão ao Senhor Todo-Poderoso, onde Abraão se curvava, com o rosto em terra e o levantava, juntamente com as suas mãos, em reverente atitude de adoração.

No versículo oito, ora palco dessa singela incursão teológica, verificar-se-á que Abraão fincou uma bandeira no coração da terra prometida e, segundo Kidner, em sua obra literária , “pôs às claras que o mando do Senhor impera em toda parte”, e acresce: “e há ênfase no contraste existente entre armou e edificou, no primeiro caso, para si próprio; no segundo, para Deus. As únicas estruturas que deixava para trás de si eram altares; nada que lembrasse as suas riquezas”. Que maravilha!

Naquele local de decisão – entre Betel e Ai – Abraão “armou a sua tenda”, conforme assevera o texto ora sob olhar investigativo, mas o referido verso bíblico veterotes tamentário, conclui: “e edificou ali um altar ao Senhor e invocou o nome do Senhor”. Não apenas “edificou”, juntando pedras no sentido vertical, em direção ao alto, mas “invocou” o Grande Nome do Senhor! Sua atitude era dinâmica! Fez menção dEle em seu viver. Abraçou a fé e alcançou o favor do Senhor.


Entanto, é hora de concluir e neste momento reflexivo e conclusivo, uma série de indagações deve ficar aqui registrada: em que lugar estamos armando as nossas tendas? Temos feito boas escolhas com as quais temos escrito a nossa história de vida, de nossa existência? Será que temos entendido que somos, como crentes, “nômades” em terra emprestada, em terra estranha? Temos entendido que somos cidadãos das moradas eternas e estamos para lá caminhando? Mas, sobretudo, temos edificado altares que nunca se apagarão? Temos deixado boas marcas a serem seguidas? Ou, antes, temos deixado apenas vestígios insignificantes de tendas? Temos invocado, em nosso viver, o nome do Senhor dos Exércitos? Amém!

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